Zé Tenente, mata dez no dente!

Desenho (Renato Zaca)
Da série "minha mãe me contou lá no sertão", vem aí "o seu zé..."

Lá pelos meus seis, sete ou oito anos minha mãe me contava essa história toda a semana, ela conhecia outras cem, mas como toda criança irritante eu falava "Mãe conta a do zé!" e ela me contava pela milésima vez com a mesma empolgação da primeira (mãe é de outro planeta!). Quando eu criei esse blog pensei em repassar essas aventuras alá sertão, porque esse foi meu primeiro contato com histórias, fábulas e lendas, sem eles talvez eu não fosse tão compulsiva por livros! sem mais enrolação dessa que enrola aí vai a história do seu zé...



Fazia um calor de "lascar" e o seu zé caminhava com o seu burrinho pela estrada, triste e deprimido. Ter um burrinho era uma dádiva dos céus, mas o tal do celestino empacava mais do que mulher no dia do casamento, por isso o seu zé estava tão desolado. Lá longe, o seu zé viu um menino todo surrado, mas feliz da vida. O seu zé ficou muito curioso e confuso, ficou se perguntando por que esse menino todo esfarrapado sorri feito uma rapariga? quando o tal esfarrapado se aproximou, o seu zé logo perguntou:

- Mas o que diacho ta te deixando mostrando os dente menino?

O menino olhou para o seu zé confuso e respondeu:

- To brincando com meu tatuzinho moço.

O seu zé olhou para o tatu, olhou para o seu burro e teve uma brilhante ideia:

- Ocê troca mais eu?

- O que moço? O tatuzinho?

- Não limpou as zureia menino? Ocê troca ou num troca?

- Ah troco, troco - e o menino esfarrapado saiu pulando, mais contente que a tal rapariga...

Naquela tarde o seu zé estava se sentindo um "Omi de verdade", pois tinha feito o melhor negócio da sua vida: se livrou do celestino e ganhou um tatu da felicidade.
Chegando em casa foi logo contar as boas novas para sua esposa:

- Bem, oh bem!!!

-Que foi Omi?

- Ocê vai ter orgulho de mim, me livrei do celestino!

- Vendeu foi?

-Ara! Que nada, fiz muito mió... troquei!

- E por o que Omi? Se não tô vendo ocê com nadica de nada!

- Aqui bem! - E lá foi o seu zé mostrar o ilustre tatuzinho para a mulher.

Assim como dois mais dois são quatro, era certo que o seu zé dormiria na rede da sala pelos próximos dias. O tatuzinho da felicidade não fazia jus ao seu nome, afinal.
No outro dia o seu zé decidiu que provaria ser um "Omi de verdade", acordou com cantar do galo e foi fazer sua faixa da masculinidade.
Quando sua amada mulher viu o que estava escrito na faixa, quase deitou no chão de tanto rir.

- Ta doida muié! Por que ta se estrebuchando toda?

- Onde ocê pensa que vai com isso aí Omi?

- Ara! Num ta vendo? Ser o maior matador que essas bandas já viu!

Ele colocou a faixa na cabeça, onde estava escrito: ZÉ TENENTE, MATA DEZ NO DENTE!

A mulher ainda rindo, perguntou:

- E como ocê vai fazer isso? Ocê tem medo até de barata!

- Agora sou um novo Omi!!!

E assim foi seu zé, desfilar pela cidade com a faixa da sua "brabeza" na cabeça.
Em poucos dias a fama do Zé Tenente se espalhou e todos os homens "cabra da peste" da cidade não queriam confusão com uma pessoa que matava dez só com os dentes.
Nessa mesma época um fazendeiro estava perdendo seus animais por causa de uma onça, e queria o homem mais bravo da cidade para matar a coitada. Para o azar do seu zé, o homem mais bravo das redondezas era ele, e o fazendeiro convidou o pobre coitado para uma conversa nada agradável.

- Fiquei sabendo que ocê é o cabra mais macho da região! - o fazendeiro disse com um charuto na boca, fazendo cara de poucos amigos.

- Si si sim, sinhô...

- Então ocê vai matar a maldita onça! E se não matar eu mato ocê!

O seu Zé coitado! Não sabia do que tinha mais medo, da onça ou do fazendeiro com o charuto. Ele nunca tinha matado uma barata, agora tinha que matar uma onça.

- Mas se ocê matar - continuou o fazendeiro - te dou qualquer dinheiro que ocê me pedir, e ocê vai ficar rico! Sorria Omi, pra quem mata dez só com os dentes, uma onça não é nada.

O medo era tanto que o o seu Zé se encolheu na cadeira rezando para que algum milagre acontecesse e ele saísse daquela cilada.

Quando a noite chegou, o fazendeiro mostrou para o seu Zé o lugar onde os animais ficavam, e depois saiu, deixando o seu Zé tremendo mais do que vara verde.
O seu zé ficou parado, fazendo todas as preces que conhecia para a onça ficar em casa naquela noite, prometeu tudo o que tinha e o que não tinha. E quando sua fé começava a aflorar a tal da onça chegou!
O seu zé correu feito uma galinha assustada, tropeçando nas suas próprias pernas e de repente para o seu azar tinha um buraco na sua frente, ele abaixou rezando pela sua alma, sentindo o molhado das calças e... plá!!!
A onça pulou em cima dele, mas caiu no buraco. O buraco salvador era tão fundo, mas tão fundo que a coitada da onça ficou presa e o seu Zé não podia acreditar em seus olhos... Ele era um "Omi de verdade", pois vencera a onça brava.

E assim nasceu a maior lenda do sertão:
ZÉ TENENTE, MATA DEZ NO DENTE E NÃO TEM ONÇA QUE AGUENTE!




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Sobre Francine Nunes

Quase química. Amante de livros, séries e filmes. Assim como o Cazuza, meus heróis morreram de overdose. Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força.

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